Regras e Combinados em um Relacionamento Não-monogâmico



Todo relacionamento envolve algum tipo de negociação. Nos relacionamentos não-monogâmicos essa negociação se torna ainda mais crucial pois não costumamos ter referências sobre como se relacionar dessa forma. Já que fomos criados em uma cultura que prega a monogamia como padrão, acabamos ficando sem referência quando partimos para um modelo distinto do tradicional. Isso implica que cada detalhe deve ser negociado e discutido até se chegar a um modelo de relação que atenda às necessidades e anseios de ambos os parceiros.


Combinados ajudam as pessoas a se sentirem seguras e terem alguma previsibilidade. No caso das relações não-monogâmicas, os combinados servem para que o casal possa definir o que buscam com a abertura do relacionamento, o que exatamente querem experimentar e, não menos importante, o que não querem. Nesse sentido, estabelecer combinados tem a ver com respeitar os limites de cada um. Para isso, é muito importante que ambos tenham voz na hora de estabelecer os combinados, daí a importância de existir autonomia entre os indivíduos da relação. Não pode haver coerção ou ameaça, deve ser sempre uma negociação amorosa. Ambos têm que sentir que suas necessidades e limites foram levadas em consideração. O timing também é importante, dê preferência para iniciar essa negociação quando o casal estiver bem e equilibrado. Lembre-se que o melhor é sempre ir devagar neste processo, avançando gradativamente, sem pressa.

O ideal é que nenhum desses combinados fiquem implícitos, quanto mais explícito melhor, podendo até serem feitos por escrito. Mas é claro que mesmo com o máximo de explicitação possível, ainda assim vão surgir questões que não foram antecipadas e tem que haver espaço para acomodar novas situações, rediscutindo os combinados se for o caso. Por isso mesmo, esses combinados devem ser dinâmicos, assim como são as pessoas e a vida. Logo, deve haver espaço para que os combinados possam ser revistos e renegociados caso alguém não esteja se sentindo confortável com o acordo estabelecido. Vejamos a seguir as principais questões que podem ser definidas na hora de elaborar os combinados que vão reger o contrato de relação não-monogâmica do casal.


Qual é o contorno geral da relação não-monogâmica? Queremos ter só variedade sexual ou afetiva também? Sairemos sempre juntos ou pretendemos sair sozinhos também? Vai ser swing, relação aberta, poliamorismo ou uma combinação dos três? O que pretendemos experimentar com outras pessoas? Só sexo, sem romance? Só amassos e beijo, sem sexo? O sexo tem que ser feito sempre com camisinha? Vale tudo no sexo, incluindo sexo oral e anal? Ter encontros não sexuais, tipo ir pro cinema ou almoçar juntos está valendo? E ficar trocando mensagens durante o dia, por exemplo? Com quem pretendemos sair? Só com desconhecidos? Pode sair com amigos? E pessoas do trabalho, tá valendo? Pode sair com homem e mulher? E com casais?


Quando e com que frequência pretendermos sair com outras pessoas? Pode sair sempre que quiser ou está limitado a alguns dias da semana ou do mês? Só quando estiver fora da cidade, por exemplo? Só quando o outro já tiver algum compromisso? Só pode sair quando a relação estiver boa, sem conflitos? Para onde pode ir? Somente a lugares públicos? Só em casas noturnas? Pode trazer alguém para casa? Pode transar com alguém na cama do casal? Pode dormir fora de casa? Outros detalhes importantes: Pode sair mais de uma vez com a mesma pessoa? Deve-se compartilhar as experiências com o parceiro ou guarda pra si? Tem que avisar o parceiro previamente? O outro vai ter poder de veto? Um pode ter acesso à comunicação do parceiro com as pessoas que ele sai? Pode fazer perfil em aplicativos de paqueras?


Por mais que combinados e regras sejam relevantes, é preciso também deixar espaço para a experiência ir se descortinando naturalmente e cada um descobrir o que faz sentido para si à medida que as vivências acontecem. O modelo de combinados e regras, dependendo de como é conduzido, pode acabar enrijecendo a experiência, pois como mencionamos anteriormente, a realidade é muito dinâmica e não sabemos como vamos nos sentir quando estivermos em contato com a experiência concreta. É muito difícil prever como as coisas vão se desenrolar quando adentramos o universo das relações não-monogâmicas. Então, talvez mais importante do que estabelecer regras e combinados rígidos, seja a capacidade de manter uma comunicação aberta e continuada sobre tudo o que for emergindo. Dessa forma, fica mais fácil de acompanhar a vivência de cada um enquanto o casal se mantém aberto para aprender com a evolução dessas experiências.


Ao invés de reduzir os combinados a uma lista de permissões e proibições do que se pode ou não fazer, talvez faça mais sentido pensar nos combinados como diretrizes, como uma direção para onde o casal quer caminhar, como um alinhamento de intenções, entendimentos e expectativas sobre o que cada um deseja e anseia, bem como o que vislumbra ser melhor para si e para o casal. Na prática, o que vemos ocorrer com os casais é iniciarem a relação aberta com muitas regras rígidas e depois, gradativamente, se moverem para um modelo mais fluido, com menos regras e mais diálogo constante. Nesta evolução natural, a tendência é que cada parceiro tenha cada vez mais autonomia para escolher que experiências gostaria de ter e a negociação passa a recair mais sobre como se conduzir na prática essas vivências e não tanto sobre o que se está autorizado ou não a fazer.


Deste modo, a relação favorece com que cada sujeito tenha autonomia de escolha sobre seu desejo e os combinados vão servir mais para definir a melhor forma de realizar essas experiências. Mesmo que muitos casais não estejam prontos ainda para dar total autonomia de escolha a seus parceiros essa pode ser uma perspectiva boa no horizonte. O fato é que apenas aprendemos a sentir segurança através do controle mas essa é uma segurança um tanto precária. O controle e a proibição são uma espécie de paliativo. A verdadeira segurança é aquela que emerge da força do vínculo do casal. Quando mais sólido é o vínculo e a conexão do casal e mais transparente é a comunicação, maiores são as chances de o casal permanecer juntos ao longo do tempo. É a conexão e a intimidade que fortalecem a relação e não as regras e normas.



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