Por que as pessoas traem nos relacionamentos?



De acordo com algumas estatísticas, 75% dos homens e 68% das mulheres já admitiram ter traído de alguma forma ao menos uma vez na vida. Em 1953 o famoso relatório Kinsey já revelava que 50% dos homens haviam traído ao menos uma vez até os 40 anos, mostrando que esse problema não é de hoje. Atualmente existem até sites especializados em traição como o Ashley Madison que conta com 65 milhões de usuários no mundo todo que buscam formas mais eficientes de “pular a cerca.”

Há quem diga que a traição ocorre quando o casamento não vai bem. Isso pode até ser verdade em alguns casos, porém, parece haver uma explicação muito mais simples para a alta taxa de traição: o ser humano simplesmente gosta de variedade sexual, assim como gostamos de variação em outros aspectos da vida. Como bem ilustrou a socióloga Catherine Hakim: “Gostar de comer em casa diariamente não nos impede de ir ao restaurante de vez em quando.”


No livro “O mito da monogamia – Fidelidade e infidelidade entre pessoas e animais”, os autores David Barash e Judith Eve Lipton explicam que: “Os conservadores sociais preferem assinalar o que veem como uma ameaça crescente aos valores familiares. Mas eles não têm a mais vaga ideia de como essa ameaça é realmente grande ou de onde ela vem. A família monógama está definitivamente sitiada, e não pelo governo nem pelo declínio da fibra moral, e certamente não por uma ampla campanha homossexual... mas pelos ditames da própria biologia.”


Usando tecnologias de DNA hoje tão comuns em processos de reconhecimento de paternidade, os biólogos, pela primeira vez, puderam comprovar com ampla segurança que a regra na natureza é a não-monogamia e não o contrário, como explicam os autores: “Ao tentarem manter um vínculo social e sexual que consista exclusivamente em um homem e uma mulher, os aspirantes a monógamos estão contrariando algumas das inclinações evolutivas mais profundas com as quais a biologia desenvolveu a maioria das criaturas, inclusive o Homo sapiens. (...) graças aos recentes desenvolvimentos na biologia da evolução, combinados com a mais moderna tecnologia, simplesmente não há nenhuma dúvida que de o desejo sexual por múltiplos parceiros é natural. Ele é. Da mesma forma, simplesmente não há nenhuma dúvida de que a monogamia é natural. Ela não é.”


Curiosamente, Freud já havia afirmado há mais de um século, em seu artigo de 1908 ‘Moral Sexual Civilizada e Doença Nervosa Moderna’, que: "As relações sexuais no casamento só são satisfatórias durante alguns poucos anos (...) após esse três, quatro ou cinco anos, o casamento torna-se, pelo menos em relação à satisfação das necessidades sexuais, um fracasso". Seu discípulo, o psiquiatra Wilhelm Reich, seguiu na mesma linha de raciocínio afirmando em seu livro ‘A Função do Orgasmo’ que: “É preciso aprender a ver claramente o problema do casamento. (...) As necessidades sexuais podem ser satisfeitas com um e mesmo companheiro durante algum tempo apenas.”


Então, se você estiver tendo dificuldade para se manter monogâmico em uma relação, acredite, talvez isso não seja culpa sua! A natureza nos projetou de modo a valorizar fortemente a variedade sexual. A vasta maioria das espécies animais são não-monogâmicas. Helen Fisher, autora do livro ‘Por que nós amamos: a natureza e a química do amor romântico’, afirma o seguinte:


“Tenho uma teoria de que desenvolvemos três sistemas cerebrais distintos para acasalamento e reprodução. Um deles é o impulso sexual, o desejo por gratificação sexual. O segundo é o amor romântico, essa obsessão, o desejo, o êxtase, a atenção concentrada, a motivação para conquistar um determinado parceiro de acasalamento; aquele amor romântico precoce e intenso. E o terceiro sistema cerebral é o apego, aquela sensação de calma e segurança que você pode sentir com um parceiro de longa data. O que acho mais notável sobre esses três sistemas é que muitas vezes eles não estão conectados. Você pode sentir uma forte sensação de apego a um parceiro de longa data enquanto sente um intenso amor romântico por outra pessoa, ao mesmo tempo que sente esse forte impulso sexual por toda uma gama de pessoas diferentes.”


Aqui cabe uma ressalva muito importante! O fato de apontarmos que a monogamia não tem nada de natural - antes pelo contrário - não quer dizer que as pessoas não possam optar por ela. Algumas pessoas se identificam sim com a monogamia, se sentem monogâmicas e provavelmente vivem melhor assim. O importante é cada um descobrir o que é melhor para si e só o autoconhecimento pode trazer essa consciência para a pessoa. Estamos apenas tentando desconstruir essa obrigação de ser monogâmico, que é tão ruim quanto a obrigação de ser não-monogâmico. Vemos que a questão não se reside em ser ou não ser monogâmico, mas sim em sermos ou não sermos obrigados a viver de um modo que não representa a nossa verdade.

10 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo