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O legado diabólico do Cristianismo



Vivemos em uma cultura francamente antissexual. Isso significa que tudo que é associado ao sexo tende a ser desqualificado. É por isso que a principal forma utilizada para se ofender alguém é mandar essa pessoa se fuder, ou seja, mandamos essa pessoa fazer sexo - o famoso foda-se! Mas essa análise pode se estender para além dos palavrões também. Por exemplo, nós costumamos usar a expressão perder a virgindade para quem se iniciou no universo da sexualidade. Como que adentrar o universo do prazer sexual pode ser considerado uma perda? Não seria melhor dizer que a pessoa encontrou a sexualidade?


Pensemos na palavra promíscua. De acordo com o dicionário Aurélio, ela define a “pessoa que se entrega sexualmente com facilidade”. A mim me parece uma coisa bonita, mas sabemos que essa palavra tem uma conotação fortemente negativa. Eu me pergunto: qual é exatamente o mérito de ser difícil? E de que maneira fazer sexo com menos pessoas pode ser melhor do que fazer sexo com mais pessoas? Qual é exatamente o benefício de se fazer menos sexo afinal? A única forma de se chegar a essa conclusão é acreditando que sexo é um coisa ruim e que deve ser evitado... Caso contrário, se fosse bom mesmo, quanto mais melhor, não é verdade?

Mas se o sexo foi tão demonizado em nossa cultura, o que é que foi divinizado em seu lugar? O AMOR. Ninguém no mundo é contra o amor. Quando pensamos em termos de amor, todos concordam que quanto mais amor na vida melhor, não é mesmo? O que parece é que o sexo ficou tão negativizado em nossa cultura porque a sociedade opôs sexo ao amor. Amor é divino e o sexo é profano. Um deve ser buscado e outro deve ser evitado ao máximo. E onde é que aprendemos essa oposição entre amor e sexo?

Nada mais nada menos do que na figura de Jesus Cristo. Quando pensamos na pessoa de Jesus, costumamos atribuir a ele todas as qualidades possíveis em um ser humano, como amor, bondade, caridade, compaixão, pureza, verdade, santidade, justiça, não é mesmo? Mas qual é a única coisa que nunca iremos associar à figura de Jesus? Isso mesmo... SEXO! Chega até a ser uma heresia pensar nisso, heresia digna de fogueira! Jesus é, então, o expoente máximo da representação do amor justamente na mesma medida em que é o expoente máximo da representação de uma pessoa assexuada. Até mesmo com relação ao seu nascimento o cristianismo conseguiu operar, convenientemente, umaassepsia de qualquer vestígio de sexualidade, alegando que ele teria nascido de uma mãe virgem, realizando assim um apagamento completo das suas origens sexuais!


Este é precisamente o legado diabólico do cristianismo. Em seu sentido etimológico, a palavra "diabólico" seria o oposto de "simbólico". Enquanto o símbolo reúne, o diabólico é aquilo que desune. O cristianismo conseguiu a incrível proeza de desunir sexo de amor. O amor foi enaltecido e o sexo foi demonizado, como se uma coisa não tivesse nada a ver com a outra! Mas a verdade é que o amor é o fruto da árvore da sexualidade e é impossível envenenar uma árvore sem comprometer seus frutos.


O psiquiatra austríaco Wilhelm Reich acreditava que quando nos voltamos contra a sexualidade, sem perceber acabamos nos voltando contra tudo que ela representa, como o prazer, a potência, a conexão e o amor! O pensador inglês Bertrand Russel, em um de seus livros, seguiu nessa mesma linha de raciocínio afirmando que: “Mantendo numa prisão o amor sexual a moral convencional concorreu para aprisionar todas as outras formas de sentimento amistoso e para tornar os homens menos generosos, menos bondosos, mais arrogantes e mais cruéis.”


Para desfazermos essa distorção e acabarmos com essa cultura antissexual que o cristianismo nos legou, precisamos requalificar a experiência do sexo. Precisamos realmente passar a enxergar o sexo como uma força divina também, assim como o amor. Para isso é fundamental reivindicar uma linguagem positiva para o sexo. A única forma de se fazer isso é ressignificando certas palavras, utilizando-as em descrições positivas para limpar a carga negativa historicamente atribuída a elas. Podemos iniciar redefinindo o termo promiscuidade, reivindicando esta palavra como um termo de aprovação ao invés de repúdio. Segundo as autoras Hardy Janet e Easton Dossie, uma melhor definição para a palavra promíscua seria “uma pessoa de qualquer gênero que celebra sua sexualidade de acordo com a proposta radical de que sexo é bom e que é benéfico sentir prazer.”


Para essas autoras, “pessoas promíscuas compartilham sua sexualidade pelas mesmas razões que as filantropas distribuem seu dinheiro: porque têm isso de sobra e ficam felizes em dividir com outras pessoas, porque compartilhar isso faz do mundo um lugar melhor. Quem se identifica com essa visão, no geral, descobre que, quanto mais amor e sexo se compartilha, mais se recebe de volta: um milagre da multiplicação em que ganância e generosidade caminham lado a lado para prover mais para todo mundo. Imagine viver em abundância sexual?” É por isso mesmo que Wilhelm Reich, psiquiatra austríaco pioneiro no campo da sexualidade, afirmou no seu livro "A função do orgasmo" que deveria haver leis para salvaguardar a felicidade sexual das pessoas”. Imagine um mundo onde o direito à felicidade sexual está protegido por lei, onde a sociedade se organize de modo a favorecer e encorajar a satisfação sexual de todas as pessoas. Seria certamente um mundo muito mais amoroso!


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