O casamento e a perda da individualidade



A intimidade saudável é aquela que não anula as diferenças. Para isso é necessário haver um forte senso de autonomia individual e respeito às individualidades, como explica a psicanalista Regina Navarro: “Ter uma relação de intimidade quer dizer entrar na vida do outro sem perder o sentido da própria identidade. Para isso é necessário haver uma forte autonomia individual. (...) Ao contrário da simbiose, a intimidade precisa da manutenção de um forte sentido de individualidade: só a pessoa que confia em si própria pode soltar as amarras e enfrentar o mar aberto de uma relação envolvente com o outro.”


Porém, a ideologia do amor romântico acaba contribuindo para um enfraquecimento do sujeito na medida em que enaltece a ideia de que amar é não poder viver sem o outro. O que é estimulado nesse modelo de relacionamento é a dependência emocional e não a intimidade. A dependência emocional entre um casal é encarada por todos com naturalidade porque se confunde com amor e é reforçada por um modelo de relacionamento que pressupõe que um vai satisfazer todas as necessidades do outro.


Na vida adulta, ao se entrar em uma relação amorosa e a dependência infantil que se tinha da mãe na infância não tiver sido bem elaborada, ela pode reaparecer com bastante força. O reaparecimento da insegurança infantil leva a pessoa a exigir exclusividade total no amor e sentir um medo terrível de perder a pessoa da qual sente que depende para sobreviver.

O medo da solidão e do desamparo leva à exigência de que o parceiro não tenha olhos para mais ninguém. Se o marido ou a mulher, por exemplo, for tomar um chope com os colegas ao sair do trabalho, pode causar uma grande dor no outro, que entende essa atitude como desinteresse e uma ameaça à estabilidade da relação. Nenhum tipo de prazer individual é admitido quando se espera ser a única fonte de interesse do outro


O receio de ser abandonado ou trocado por outra pessoa leva a se exigir do parceiro que não tenha interesse, nem ache graça, em nada fora da vida a dois, o que fortalece uma simbiose, como explica o psicoterapeuta Paulo Lemos em seu livro “Educação Afetiva – Por que as pessoas sofrem no amor?”:


“Algumas pessoas realmente se sentem amarradas e presas quando estão numa relação, como se não pudesse mais viver ou gozar a liberdade. Elas absorveram a ideia de que conviver significa abster-se de ter vida própria. (...) Possuir um espaço próprio dentro de uma relação torna-se então uma questão de higiene – manutenção da saúde da relação. Como a maioria de nós foi educada para estar grudado, quando intuitivamente um dos pares começa a reivindicar espaço maior para si parece que algo estranho está acontecendo. Surgem as fantasias de abandono, surge o ciúme.”

São as relações que devem servir às individualidades e não se servirem delas. Os relacionamentos é que devem estar à serviço dos indivíduos e não o contrário. Por isso é muito importante cultivar espaço para a individualidade dentro do relacionamento, cada um deve manter suas amizades, seus próprios projetos, ter um tempo só para você, enfim, uma parte de si que esteja fora do âmbito da relação, algo que te diferencie do parceiro e que traga um sendo de independência e individuação.

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