Não-Monogamia Política



A monogamia surgiu no mundo como um sistema de controle do comportamento sexual das mulheres a fim de servir ao interesse dominante dos homens proprietários de terras e animais. Em muitos sentidos a monogamia surgiu como um mecanismo de escravidão da mulher para fins reprodutivos. Historicamente, mulher e filhos se somavam às terras e bens materiais do patriarca como suas propriedades. Então, de partida vemos algo de muito negativo na tradição monogâmica, ela coisifica as pessoas, transforma as pessoas em objetos que servem ao interesse de outrem. No passado o interesse era o controle do corpo feminino para geração de herdeiros legítimos. Com a expansão do cristianismo, essa exigência se generalizou para os homens também e o controle do comportamento sexual de todos passou a servir como um mecanismo de dominação política da igreja.


De todo modo, a monogamia sempre serviu como um mecanismo de controle do corpo de alguém, seja para fins materiais ou para fins políticos. Hoje em dia a monogamia tem sido utilizada com o propósito de garantir segurança psicológica para o parceiro, segurança de que a pessoa não será trocada por outra. Ainda assim, é uma coisificação do outro, é uma forma de utilizar a sexualidade da outra pessoa para satisfazer uma necessidade psicológica própria (neste caso, necessidade de segurança). Por conta desta perspectiva é que muitas pessoas no universo não-monogâmico argumentam que devemos enxergar a não-monogamia não apenas como um modelo relacional, mas como um ato político, como uma luta contra as opressões estruturais. Nessa perspectiva politizada, “não-monogamia não é sobre quantidade de pessoas que se pega. É sobre não se autorizar a legislar a sexualidade/afetiva de outra pessoa.”


A não-monogamia enquanto escolha política é uma desconstrução de paradigmas impostos por uma sociedade racista, machista e patriarcal. Paradigmas que determinam como as pessoas devem ser ao invés de as encorajarem a serem elas mesmas. Nesse sentido a monogamia é aliada de outros mecanismos normativos de opressão como a heteronormatividade, a cisnormatividade e o machismo. O sistema monogâmico também se articula com o da propriedade privada e este, por sua vez, com todo o racismo estrutural, como explica Geni Núñez: “Romper com a lógica monogâmica é romper com uma cultura cisheteropatriacal e branca. Para isso, é necessário, um posicionamento anti-machista, anti-racista e anti-LGBTQIfóbico também.”


Nessa perspectiva, pode-se entender a não-monogamia também como uma identidade e não só como uma prática relacional, como explica Nana Miranda: “Se entender não-mono contempla a busca por emancipação na construção da identidade política, nos dando a oportunidade de romper com uma homogeneidade social que é a monogamia.” Sendo assim, mesmo sendo solteiro, ainda é possível ser não-monogâmico, no sentido de buscar se relacionar sem controlar a afetividade/sexualidade das outras pessoas.


A luta não-monogâmica é para permitir que as pessoas sejam livres para escolherem como querem se relacionar, sem nenhuma coerção. Da mesma forma que as pessoas devem ser livres para manifestarem a sua orientação sexual sem preconceito. Da mesma forma que a expressão de gênero deve ser livre, sem preconceito. Da mesma forma que os homens devem ser livres para chorar e expressarem seus afetos sem julgamento. Da mesma forma que os meninos devem ser livres para usarem cor de rosa e as meninas devem poder jogar futebol e assim por diante! Toda normatização é opressiva e coercitiva pois não dá para um modelo só valer para todas as pessoas. Há quem goste de ser monogâmico e há quem goste de ser não-monogâmico - não deveríamos definir a priori qual é a norma e sim deixar as pessoas livres para manifestarem sua verdade, sua singularidade, sem terem seu valor e sua dignidade diminuídos por isso.



E Já que estamos falando sobre opressão estrutural, não poderíamos deixar de mencionar as questões de gênero subjacentes à não-monogamia. Relações abertas funcionam melhor quando existe uma relação igualitária entre os membros da relação, onde ambos têm voz e igual autonomia decisória. Porém, como vivemos em uma sociedade patriarcal, sabemos que infelizmente os homens, de forma geral, costumam ter mais poder que as mulheres, inclusive nas relações afetivas. Por isso, é possível que os homens se utilizem desses discurso não-monogâmico para obter benefícios para si próprio, sem levar em consideração os interesses da parceira. Neste caso, haverá a reprodução do modelo patriarcal em que o homem utiliza a mulher para satisfazer seus interesses pessoais.


Essa assimetria de poder na relação pode levar a situações muito opressoras, principalmente no universo do swing, onde muitas vezes as mulheres acabam se submetendo a participar de experiências sexuais aversivas somente porque o parceiro quer. Ou então a mulher acaba sendo utilizada como “moeda de troca” para o parceiro ter acesso a diferentes mulheres. Nada disso pode ser descrito como não-monogamia responsável, que é pautada sempre pela ética do cuidado e da autonomia de todos os participantes.


Para se proteger contra essa situação, os autores do livro “Relações Livres – Uma Introdução” elaboraram essa lista com cinco perguntas que as pessoas, especialmente as mulheres, devem fazer a si mesmas para compreender melhor sua posição nessa abertura da relação. Uma resposta positiva a qualquer uma delas indica necessidade de examinar a situação com atenção:


1. Eu quero uma relação não-monogâmica de fato ou estou aceitando somente por medo de perder o parceiro?


2. O comportamento de meu parceiro dificulta, de alguma forma, que eu seja livre, que eu saia com outras pessoas?


3. Meu parceiro (ou parceira) força a barra para que eu me relacione com outras mulheres (ou homens), mesmo eu não estando certa se é isso que eu quero?


4. Tenho a impressão de que meu parceiro só está a fim de transar comigo, mesmo que estejamos nos propondo a estabelecer uma relação também afetiva?

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