A monogamia e o cristianismo




A tradição de monogamia compulsória se desenvolveu no pano de fundo moral da repressão sexual propagada pela religião judaico-cristã. Afinal de contas, se sexo fosse considerado algo tão bom assim, por que criaríamos uma regra para restringir as relações sexuais ao invés de encorajá-las? A partir do momento em que passamos a enxergar o sexo de forma mais positiva, começa a fazer mais sentido que busquemos arranjos sociais que favoreçam o desenvolvimento sexual dos indivíduos, como por exemplo, os relacionamentos não-monogâmicos. Lembremos que para o cristianismo o sexo só tem legitimidade se for para a reprodução, por isso o adultério sempre foi tão condenado, porque é feito apenas por prazer e não para fins reprodutivos.


A bíblia está cheia de versículos condenando o adultério: “Mas o homem que comete adultério não tem juízo; todo aquele que assim procede a si mesmo se destrói.” (Provérbios 6:32). “Vocês ouviram o que foi dito: 'Não adulterarás'. Mas eu digo: Qualquer um que olhar para uma mulher e desejá-la, já cometeu adultério com ela no seu coração.” (Mateus 5:27-28) “Se um homem cometer adultério com a mulher de outro homem, com a mulher do seu próximo, tanto o adúltero quanto a adúltera terão que ser executados.” (Levítico 20:10) “O casamento deve ser honrado por todos; o leito conjugal, conservado puro; pois Deus julgará os imorais e os adúlteros.” (Hebreus 13:4) “Adúlteros, vocês não sabem que a amizade com o mundo é inimizade com Deus? Quem quer ser amigo do mundo faz-se inimigo de Deus.” (Tiago 4:4)


Diversas punições foram aplicadas ao longo da história para punir casos de adultério: morte por fogo, por afogamento, por sufocamento, golpes de punhal, açoitamento público, marcação a ferro quente, espancamento, decepação do nariz e das orelhas, mutilação dos genitais e até mesmo morte por apedrejamento, que ocorre até hoje em alguns países. Segundo a lei islâmica denominada Sharia, uma mulher considerada adúltera deve ser enterrada até o pescoço e apedrejada até a morte. Quem decreta a sentença são tribunais religiosos. Existem algumas regras para a execução. Os executores devem cuidar para não atirar pedras muito grandes para não matar rapidamente a vítima. Versos religiosos são entoados enquanto as pedras são atiradas.


Apesar de todas as punições que a sociedade já criou para o adultério ainda assim, homens e mulheres de todas as épocas e lugares se envolveram e ainda se envolvem em relações extraconjugais. Não existe cultura em que o adultério não seja conhecido e parece não haver nada capaz de fazê-lo deixar de existir. Como explicita a antropóloga Helen Fisher: “A nossa tendência a ligações extraconjugais parece ser o triunfo da natureza sobre a cultura. (...) Dezenas de estudos etnográficos, sem mencionar inúmeras obras de história e de ficção, são testemunhos da prevalência das atividades sexuais extraconjugais entre homens e mulheres do mundo inteiro. Embora os seres humanos flertem, apaixonem-se e se casem, eles também tendem a ser sexualmente infiéis a seus cônjuges.”


Segundo o psicoterapeuta e escrito inglês Adam Philips, “A infidelidade é o problema que é porque assumimos a monogamia como algo indiscutível; como se fosse a norma. Talvez devêssemos pensar na infidelidade como o que não precisa se justificar, assumi-la com uma naturalidade sem mortificações, para termos condições de refletir sobre a monogamia. Podemos crer que partilhar seja uma virtude, mas parecemos não acreditar em partilhar aquilo que mais valorizamos na vida: nossos parceiros sexuais.”


Porém, o cristianismo também difundiu a ideologia do sacrifício, ilustrada pela ideia de que Jesus havia dado sua vida para nos salvar. O sacrifício foi então enaltecido na perspectiva cristã e associado a um ato de amor - quem ama deve se sacrificar pelo amado. Por essa perspectiva, nada mais razoável do que se abrir mão do próprio desejo para agradar ao parceiro, sacrificando a própria liberdade sexual como uma prova de amor!


Já para o psiquiatra austríaco Wilhelm Reich, a sexualidade deveria ser “regulada pela satisfação dos impulsos sexuais e não por normas morais.” Ou seja, a sexualidade deveria ser regida em função da satisfação e prazer que ela proporciona ao sujeito e não por normas morais criadas pela cultura. A sexualidade saudável seria, então, aquela regulada pelas necessidades do indivíduo e não pela necessidade de atender às demandas de instituições sociais como o casamento e a religião.

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